Testimonial
Então.
Desde quando me entendo por gente, o maior gosto que tenho tido, fora os prazeres normais de um homem normal, é o estudo. Desde pequeno me imaginei no segundo, terceiro e demais graus de escolaridade. Fui, modéstia a parte, um bom aluno. Dos quatro anos de graduação, três foram vividos com bolsas de pesquisa. Considero ainda que fui privilegiado, ao ter custeada a pós-graduação lato sensu por meio de um projeto de pesquisa.
Enfim, um projeto de sonho bom.
A realidade após a pós (lato sensu), no entanto, se mostrou bastante dura. Primeiro, acreditei ser possível e tranquilo ingressar em um mestrado de uma universidade estranha sem ter os famosos contatos. Precisei ser reprovado duas vezes para me dar conta do quão difícil era isso. Segundo, perdi mais de quatro anos com sonhos, respirando uma vida que não era de todo desejável.
Esse ano parecia ser o início de uma nova etapa.
Não me cobrava mais. Até achava engraçadinhas as piadinhas autodepreciativas que eu mesmo formulava. De uma coisa, pelo menos, estava certo: não queria repetir o mesmo processo. A hipótese de me inscrever no mesmo processo seletivo estava terminantemente descartada. O que foi bom, pois me abri para novas possibilidades, incluindo aí bons programas de mestrado, como o oferecido pela Unesp/PP e também a PUC.
Pelo menos quanto a aprovação no processo seletivo eu estava certo. Mas outros problemas viriam.
É certo que tais problemas eu jamais imaginaria que pudessem acontecer. Digo, especificamente, a respeito de minha liberação para cursar o mestrado. Imaginava que fosse, se não fácil, pelo menos possível. Depois de aprovado em todas as etapas na PUC, abandonei o processo de seleção da UNESP/PP. Contava certo a aprovação e, sequencialmente, a licença para aperfeiçoamento profissional e uma bolsa de mestrado. Estava seguro: havia sido aprovadas duas leis interessantíssimas: uma, regulamentando a saída de profissionais para cursarem mestrado e doutorado; outra, disciplinando a concessão de bolsas de pós-graduação.
Vã ilusão, porém.
Primeiro, recebo a negativa da minha instituição: não me liberariam. Segundo constava nos autos, por não ter dinheiro. Pra mim, que não entendo bulhufas da quantidade de dinheiro que entra e sai da instituição, uma resposta inócua e irrecorrível. Tudo OK. Fatalismo? Não. Vamos a luta. Emendei um segundo processo. Desse, ainda espero resposta – um pouco pessimista, no entanto. Já a bolsa, apesar de aprovada por lei, seu edital não saiu até agora. Pela absoluta ausência de informação, não tenho tanta expectativa. Enfim.
Daí fico assim. Não sei se fico alegre ou se, opostamente, lamento a situação. Folgo-me, pelo menos, na minha capacidade de olhar-me de fora. Assim, meio que friamente, distante. É uma defesa psicológica não tão adequada, concordo. Mas é o que me resta. Um eu, lá fora, gargalhando das patetices do eu, de dentro. Só assim, com riso na dor, pra curtir o passamento – que muitos chamam de vida. Há de passar, esses momentos. Há.